sexta-feira, 15 de maio de 2015

Superação? Onde?

Vamos lá gerar alguma controvérsia? Vamos lá a isso.

Eu, na minha curta e humilde "carreira" na corrida, já passei por muita coisa: tive lesões, tive lesões parvas, tive dores na corrida, não avaliei bem o esforço e efeitos no corpo, entre outros. Quem nunca passou por isto? Poucas pessoas não tiveram estas experiências. Concretamente hoje quero falar sobre o que muita gente teima em chamar de superação. E sim, esta palavra deriva de um dos últimos artigos no Correr na Cidade.

Este é um tema em que penso (e não sou o único) desde há uns bons meses. Costumo acompanhar algumas páginas do Facebook de grupos de corrida e tenho apanhado um número crescente de relatos de pessoas que se superam e conseguem acabar provas cheias de dores e após o limite físico da zona afetada pela dor.
Fonte: Regional Sports Medicine
Primeiro passo? Vamos lá tomar analgésicos e/ou anti-inflamatórios! Gelo? Descanso? Elevação? Compressão? Isso não existe na cabeça de muitas pessoas. A metodologia RICE (arroz para os amigos) não deve servir para nada. O que interessa é esconder a dor. Vejo várias até, a perguntar no Faceboook as melhores estratégias no Facebook para a esconderem.

Se a dor está lá é porque está a ser causada por alguma coisa. Se a dor está lá é porque o corpo está a tentar avisar que tem alguma coisa de errado. Mas claro, vamos lá por os pontos nos i's: nem toda a dor é sinónimo de parar. Quem corre, sabe que tem de lidar com 10 dores diferentes durante um treino. Há dores que surgem durante um treino/prova que passados 5 minutos passam. Temos é que saber identificar essas dores. Agora, andar uma semana com uma dor, com esta aumentar a intensidade e fingirmos que está tudo bem e espetar um comprimido na boca ou um creme com o mesmo efeito e ir fazer o nosso treino/prova, isso não é tratar a dor, isso é apenas parvoíce.


Não vou entrar em explicações químicas sobre o que os analgésicos e anti-inflamatórios fazem ao nosso corpo. Fazem mal (ponto). E para além disso, vou repetir-me: estes só escondem a dor! Ao fazermos esforço vamos estar simplesmente a agravar a lesão mesmo que a dor não esteja lá. "Ah espera nós escondemos a dor por isso é que não a sentimos!"

Têm uma inflamação? Abrandem/parem os treinos por uns dias e metam gelo! Uma inflamação só dura três dias. Depois da inflamação a dor continua lá? A dor impossibilita mesmo o treino? Fisioterapia, siga. A dor é apenas uma moínha ou algo parecido? Pode ser alguma coisa que precise de ser desfeita pelas mãos de um bom massagista. Preparem-se para sofrer. Quem corre, também tem de saber sofrer na marquesa.

Vou-me ficar por aqui pois um artigo sobre este assunto dava pano para mangas. Muitas pessoas vão pensar "ah e tal este anda lá na frente e está a criticar os outros". Vá lá, ganhem juízo! Isto é um problema comum a todos os atletas. Quem anda lá na frente não é diferente e também comete erros. E por vezes ainda piores.

PS: Com isto não estou a discordar do artigo do Correr na Cidade. Estou a discordar com a falta de coerência que apresentam nos seus diversos artigos, tal como fiz questão de mencionar no comentário que fiz no próprio artigo. Para mim, quando se é lido por milhares de pessoas (como o Correr na Cidade) tem de se ter cuidado com o que se escreve. Muita gente que se está a iniciar na corrida pode pensar que estar com dores e tomar um analgésico é normal. E na resposta ao meu comentário, dizerem-me que o tornavam a fazer (tomar voltarenes e brufenes para fazer a prova), peço desculpa mas é apenas incompreensível e dá um péssimo exemplo a quem os lê.

8 comentários:

  1. Também não sou muito a favor de andar a tomar comprimidos e assim se bem que de vez em quando lá sai uma massagem com Voltaren!

    Mas verdade seja dita que treinando muito ou pouco nos dias em que andamos ali a sofrer (seja por ser ritmo rápido, muita subida ou assim) vais ganhando uma maior tolerância à dor e daí a dificuldade em dizer que aquela dorzinha que aparece de vez em quando deve preocupar-nos ou não.

    Fora isso é continuar a carregar ahah

    Abraço

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    1. Existem casos e casos. O Voltaren é usado muitas vezes em massagens e alguns tratamentos de fisioterapia. Mas é uma coisa controlada por pessoas que sabem o que estão a fazer (em principio ehehh). O problema é quando as pessoas simplesmente querem ultrapassar a dor e não tratá-la.

      Quantas e quantas vezes tenho aquelas dorzinhas e é tipo "ai dói? carrega mais!" :D

      Abraço

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  2. "a perguntar no Faceboook as melhores estratégias no Facebook para a esconderem." WTF????

    Quando comecei a ler o teu artigo lembrei-me logo do "Correr na Cidade" e também pelos teus motivos...

    O problema e pelos visto vai de encontro ao que escreveste e à frase que coloquei no inicio do meu comentário é isto:

    "Sentimento geral- a ignorar a dor persistente no joelho direito.", retirado de outro blogue...pois...esta coisa espalha-se.

    Não sei se é por serem "novos corredores", se por terem um blogue, se não querem dar parte de fracos, se...

    Como dizes, quem corre, faz desporto, tem que saber conviver com dores, e se em alguns casos até justifica treinar com algumas, quando entra no "persistente", "regular", "intenso", temos que saber para e pensar no que está a acontecer e porquê.

    Aqui entra a experiência e o bom senso (sim eu sei, estragou tudo!) de cada um de nós.

    Escreve o gajo que ainda tem dores por vezes persistentes num joelho devido a uma parvoice de bicicleta em meio da adolescência....e que desistiu de preparar a Maratona do Porto 2014 pois os joelhos não aguentaram a carga...

    Nunca tive lesões consideradas graves, mas já tive entorses em ambos os 2 :) tornozelos, distensões, ruturas musculares (pronto, maxi - micro roturas), contraturas e por isso tive épocas desportivas terminadas mais cedo, paragens a meio, objectivos que se esfumarem, re-organizar e focar noutros objectivos, alterar etapas, colocar mais etapas, re-organizar treinos e tipos de treino...e sim, já tomei paracetemol, Voltaren e OMD, iboprufeno, mas temos que saber parar...penso que até agora tenho sabido, nada que tenho (fisico :)) é crónico (mesmo o joelho...é apenas mais...vá, fraquinho...) e ressente-se de esforço excessivo.

    Resumindo, concordo contigo, pá!

    Bons treinos e provas, espero que a bifana estivesse boa.

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    1. Nem há mais nada a dizer, obrigado pela tua opinião!

      Abraço!

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  3. Registei e até enfiei a carapuça nalgumas partes! Quanto às lesões nos treinos e o consequente disfarçar para participar em provas ou continuar a dar carga... bem, acho que se formos sinceros já todos fizemos isso. Com ou sem analgésicos, já todos saímos de casa uma semana antes das aconselhadas duas de descanso porque estamos a dar em doidos por estar em casa, e ficámos irritados com o médico ou fisioterapeuta que nos diz que o melhor é parar durante umas semanas. Acho que não tem nada a ver com superação, é pura estupidez. Mas, mais uma vez, duvido que algum de nós atletas amadores não tenha já feito isso.

    A segunda parte, dores nas provas... Bem, tu próprio confirmas que durante uma corrida sentimos dezenas de dores diferentes e que temos que saber distinguir. Agora transporta isso para uma prova que dura 10 ou mais horas. Não há ninguém que não acabe com dores, do primeiro ao ultimo. Podes defender que provas tão longas simplesmente são prejudiciais e não devem existir, mas isso já é outra história. No entanto, concordo plenamente que é muito importante saber separar dores normais de quem está em esforço há muitas horas e possíveis lesões.

    Como sabes, antes de me dedicar ao trail, fiz algumas maratonas de estrada. Apesar de durarem muito menos tempo, provavelmente levei mais o corpo ao limite nas maratonas do que em qualquer trail que fiz. No entanto, ando com analgésico na mochila do trail e nunca pensei sequer nisso nas maratonas. Não quero entrar naquela história do "tens que fazer para perceber" porque não gosto nada disso, mas a verdade é que são desafios e até desportos completamente diferentes.

    Dou-te dois exemplos. Na recente prova de 100km que fiz torci o pé 3 ou 4 vezes, a primeira aos 17km. Tenho perfeita consciência que desde a primeira torção ele não estava a 100% e que o mais razoável era ter parado logo ali. Mas por outro lado sabia que depois de aquecido me permitia correr o que indicava que a lesão não passaria de uma inflamação. Coloquei Voltaren e pomada inflamatória duas vezes. Serviu para disfarçar a dor? Suponho que sim, porque ajudava. Superação? Não me parece. Chamava-lhe antes gestão. Muito pior que o pé torcido foi o calor e o efeitos negativos que isso provocava no corpo. Mais uma vez, se fossemos razoáveis ninguém fazia uma centena de quilómetros naquelas condições.

    O segundo exemplo são os Abutres. Aí sim, dou-te razão. Tive uma queda feia a meio da prova e só consegui terminar porque tomei um brufen a 10km da meta (a única vez que tomei desde que corro). Mas aqui entramos noutro campo e apesar de concordar a 100% contigo, não pus outra hipótese se não acabar a prova. Não é algo que te consiga explicar, a nossa mente funciona dessa maneira...

    Concluindo, que isto já vai maior que o teu post. Não gosto de recriminar as pessoas pelas decisões que tomam, concorde ou não com elas. Quando li aquele post do Piodão do Correr na Cidade achei uma estupidez, mas depois lembrei-me que se calhar já fiz parecido. Apesar de ter um blog não sinto a menor responsabilidade de dar bons exemplos porque encaro-o como alguma coisa muito pessoal e não procuro ensinar ou inspirar ninguém. Essa treta da superação é um chavão bonito mas não tem nada a ver com ultrapassar dores, pelo menos para mim. Se para outros tem...bem, pior para eles, mas continuo naquela do "live and let live".

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  4. obrigado pelo artigo.
    concordo cem por cento.

    em 2014 fiz tres provas de 50 / 60 km e vi demasiado pessoas a correr com dores, e a tomar anti-inflamatorios para poder continuar. parece que é normal fazer isso.

    eu penso que a corrida (e o trail particularmente) entrou num exagero completo : meias de compressão, bebidas energeticas, geis, hoka one one, red bull e não sei que.

    qual o meu objetivo quando vou correr ? desenvolver o corpo e a mente.
    a filosofia desses produtos é o contrario absoluto : esconder os sinais do corpo para continuar a destrui-lo tranquilamente. é feio.

    tambem achei muito triste a cronica da Correr na Cidade no Piodao, é uma questão de responsabilidade quando temos tantos leitores. transmitir a idea que a corrida tem a ver com a dor e as drogas para poder dizer "sou ultramaratonista", é muito triste. e a resposta, como disseste, não faz sentido.

    sobre as lesoes :
    depois de dois anos a fazer treinos descalços, percebi que as dores e lesoes nas pernas tinham direitamente a ver com a tecnica.

    depois de dois anos a corrigir a minha tecnica com a ajuda do treino descalço, jà não tenho problemas nas pernas, com ou sem sapatilhas. correr descalço tem a ver com os sinais do corpo, tem a ver com ouvir e respeitar esta dor para buscar o movimento perfeito.

    Sly
    (frances em Portugal, desculpe os erros)

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  5. Amigo Vitor, eu apesar de ser apenas um "puto" nas corridas, pois só comecei a correr há 5 anos, como sabes já estive ao longo deste tempo lesionado 3 vezes, 2 por estupidez minha e outra pelo que aconteceu no dia 13 de Maio. esta ultima apesar de ser chata e me impedir de treinar, tenho orgulho nela e voltaria a fazê-la novamente se pudesse andar com o tempo para trás!

    Bem, não podia estar mais de acordo contigo, tens absolutamente toda a razão! Eu penso exactamente da mesma forma!

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  6. Sly

    quando dizes: "eu penso que a corrida (e o trail particularmente) entrou num exagero completo : meias de compressão, bebidas energeticas, geis, hoka one one, red bull e não sei que.

    qual o meu objetivo quando vou correr ? desenvolver o corpo e a mente.
    a filosofia desses produtos é o contrario absoluto : esconder os sinais do corpo para continuar a destrui-lo tranquilamente. é feio. "

    É exactamente isso, estou completamente de acordo.
    Uma vez "peguei-me" com uma atleta que no facebook da Ana na 3, se saiu com uma brilhante, !há e tal, comecei a correr há 2 meses e meio e fui fazer a meia-maratona da ponte, Ana Galvão, também consegues"... E eu antes de me saltar a tampa, ainda lhe perguntei qual o histórico desportivo dela, pois podia não correr, mas estar habituada a desportos de resistência. Resultado, vim a descobrir que tinha deixado de fumar e começado a correr há 2 meses!

    Bem, fiquei possesso! Como explicar a alguém que aquela "loucura" faz mal à saúde!!?? Que se começou a correr 2 meses e meio, nunca na vida devia ter feito tamanho esforço!

    E é isto, hoje em dia correr é moda (e ainda bem, que seja uma moda para ficar), mas todos temos limites, há que crescer devagar, construir uma boa base de kms primeiro!

    E certamente não é com "meias de compressão, bebidas energeticas, geis, hoka one one, red bull e não sei que" que se vai lá! Primeiro metam kms nas pernas calmamente

    Qual a necessidade de ir a "correr" espetar no facebook que são ultramaratonista, maratonistas e afins, se muitos ainda deviam estar a aprender a correr primeiro?

    Um abraço

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