Campeonato Nacional de Estrada 2022

Foram três meses sem competir. Três meses, sem sentir aquela adrenalina que só a corrida te consegue dar. Três meses de altos e baixos, sempre com um foco neste primeiro objetivo depois da paragem de Verão. Foi tempo a mais sem sentir a sensação de estar em pleno limite mas ainda poder continuar a dar tudo. Mas mesmo com muitos contratempos, não podia estar mais satisfeito.

Para quem tem seguido os meus devaneios no YouTube, sabe que tenho andado um pouco preso por arames nas últimas semanas. Tive uma (pequena) paragem, exatamente no momento que estava a ver resultados quer na corrida contínua, quer no treino intervalado, e depois de recuperar, foram os glúteos a dar-me cabo do juízo. Este ioiô da minha condição física, mais um mês de Setembro infernal a todos os níveis, fez com que os meus níveis de confiança para esta prova estivessem perto de zero. Aliás, digo com toda a sinceridade que juntando ainda o facto de esta prova incluir uma viagem de 5 horas de autocarro no próprio dia, que o meu objetivo realista seria na casa dos 34 minutos bem altos.

E querem saber uma coisa? Esta prólogo de queixumes de atleta amador ainda não acabou. O pior ainda estava para vir. Como escrevi em cima, arrancámos do Restelo no dia do Nacional às 5:30. Se dormi 5 horas bem dormidas foi muito, e depois no autocarro tudo se resumiu a algumas tentativas de passar pelas brasas. Nada de descanso profundo. Chegámos à zona de Joane com cerca de uma hora para a prova masculina e já com menos de uma hora para o arranque da prova feminina. Montes de tempo à espera de indicações da polícia, e acabámos a ter que ir dar uma volta que demorou à vontade uns 30 minutos. Resumindo, quando chegamos à zona da prova, as mulheres só tiveram tempo de agarrar no dorsal e correr para o bloco de partida (uma atleta nem chegou a fazer a prova pois a organização não colocou o dorsal dela no envelope da equipa, lamentável para não dizer algo pior).

Nesta altura faltavam 15 minutos para a nossa partida. Olho para o meu dorsal (dizia bloco E) e pergunto ao responsável do Belenenses “este bloco do dorsal está certo?”, e todos nós pensámos imediatamente que algo não estava bem. E o dorsal do Paulo Garcia era igual. Todos nós pensámos que o nosso dorsal estava para o pior bloco quando deveríamos partir na Elite. Corrida desenfreada à procura do secretariado, enorme confusão, e no fim meus amigos, bloco E, não é sistema de avaliação americano, é bloco de Elite. Enfim. Com isto tudo, aqueci 6 minutos às voltinhas num relvado na zona da partida. Fui o último a entrar no bloco da partida quando faltava 1 minuto e meio. Stress no nível máximo.

Respirar fundo, tiro a um minuto da partida, e novo tiro para a partida dado. Muita confusão, autênticas cenas de pugilismo nos primeiros metros, atletas no chão e inclusive um atleta do Belenenses que ainda sob a linha de partida que foi atirado contra as grades, batendo com a cabeça. Ainda conseguiu correr 3km com tonturas. Vou-me abster de dizer o que penso sobre estes atletas de merda que provocam estas situações. Tirem as vossas conclusões.

Ritmo altíssimo para mim nos primeiros 3 quilómetros. Seguia a uma média de 3:10/km, embalado autenticamente pela quantidade de atletas à minha volta. E numa descida, olhei em profundidade e não duvido que naquela altura tinha mais de 100 atletas à minha frente. No 4º e 5º quilómetros tudo mudou (podem ver o gráfico do desnível em baixo). Sempre a subir, o ritmo desceu a pique. Mas continuava a sentir-me bem e por isso comecei a ultrapassar atletas, coisa que quase não o fiz até àquela altura.



Depois do retorno, claro que todos os santinhos ajudaram. Dois quilómetros a descer e aproveitei para continuar a dar tudo o que tinha para não perder nenhuma posição e ainda ganhar algumas. Mas claro, a fatura de falta de competição nas pernas tinha que ser cobrada. A sensibilidade de me saber retrair nos primeiros quilómetros para aguentar os últimos, é essencial numa prova destas.

O percurso era um autêntico carrousel e os últimos três quilómetros quebraram-me completamente. Seguia num modo sofrimento total, vendo a cada 500 metros atletas a abandonar (na verdade, isto foi um fenómeno desde os 3,5km), e com uma vontade imensa de fazer o mesmo. Estava calor, sentia-me tenso pela viagem e falta de aquecimento, e já não conseguia responder aos atletas que iam passando por mim. Estimo que tenha perdido entre 5 a 10 posições.


Entrando na curva contra curva do último quilómetro, eu já estava desesperado. Estava um atleta à minha frente nos últimos cerca de 300m e mesmo desgastado, decidi atacar. Lembrei-me perfeitamente dos 3.000m do Campeonato Nacional de Clubes e sabia que poderia estar-me a meter-me a jeito. Dei tudo o que tinha (é sempre engraçado ver o pico no gráfico do pace no registo do Garmin) e percebi que ele não ia conseguir responder. Para terem noção, nestes metros foi a única vez que olhei para trás na prova toda.

Cortei a meta nuns completamente inesperados 33m05s. Incrível os efeitos de estar rodeado de atletas de excelente nível. É nestas provas que eu me sinto vivo e é nestas provas que eu quero estar. Mesmo que seja para ficar num lugar como 65 da geral. Este resultado vale mais para mim, do que qualquer acrílico que ganhei até hoje. Desculpem a honestidade.



Obrigado a toda a equipa do Belenenses pelo excelente ambiente vivido durante o dia todo! São experiências que ficam para a vida, mesmo com tantos percalços!

À data que escrevo este artigo, faltam poucas horas para a prova do Vale Grande, na qual eu sou padrinho. Tenho as pernas feitas num fanico, com os isquios ainda completamente doridos de toda a pancada que levaram. E amanhã ainda vão levar mais. Que seja o que os santinhos da corrida quiserem.


Campeonato Nacional de Estrada
outubro 4, 2022
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