99º Campeonato Nacional de Corta-mato Longo

Costuma-se dizer cada macaco no seu galho. No atletismo não é diferente. Mas a verdade é que não é assim que funciona. Um atleta de fundo, seja amador ou profissional, acaba sempre durante a época por dar a perninha em estrada, em corta-mato, e em muitos casos até em pista. No que a mim diz respeito, posso dizer que nos últimos anos a minha relação com o corta-mato tem mudado. Confesso que tem sido uma vertente que tenho evoluído ao longo do tempo (correr de bicos e ter perdido o medo ajudou nisto) e que até tenho ganho o gosto, principalmente nesta vertente longa.

Não vou mentir que estava a ansiar por este fim-de-semana. Não por estar desejoso de fazer a prova, mas por tudo o que acarreta ter três provas em fins-de-semana seguidos. É o plano de treinos, é a nutrição, é o trabalhar com pinças o tempo com a família e amigos. Eu juro que não sei como alguns atletas sequer têm paciência para fazer provas todos os fins de semana, e por vezes sábado e domingo. Mas divagações à parte, fora um batizado no sábado que estragou um pouco a coisa a nível de nutrição, sentia-me em perfeitas condições para o sofrimento na Amora. E sejamos honestos, mentalmente sabia que ia “levar na boca” como gente grande, ou não fossem estes os nacionais e apuramento para o Europeu.

Passados tantos anos continuo sem aprender a chegar a horas a uma prova. Basicamente cheguei 45 minutos antes da minha prova, e com o stress adicional de não fazer ideia onde estava “acampada” a minha equipa. Depois de muita correria, foi equipar, colocar os dois dorsais (acho que foi só a segunda ou terceira vez na vida que o tive de fazer, e sabemos que vamos correr com os grandes quando isto acontece) e ir rapidamente aquecer. O aquecimento numa prova destas mesmo assim não pode ser até à última pois existe uma hora específica para ter de nos apresentar na câmera de chamada, fora o ter que trocar de ténis de estrada para bicos.


Uma vez na partida, foi tempo para mais uma nova experiência. As equipas estavam divididas em corredores individuais, fazendo com que todos os elementos da equipa arranquem juntos. A equipa escolheu-me para começar na frente, o que aceitei, mas não estava de todo preparado para o que veio a seguir.

Arranquei de forma rápida mas sem grandes aventuras. O que é que isto quer dizer? Que em poucos segundos dei por mim facilmente com mais de 100 atletas à minha frente. Não stressei porque muito sinceramente já sei como isto funciona. E se em estrada acontece atletas atirarem-se para a frente à maluca, no corta-mato tenho aprendido que ainda é pior. 



A prova era composta por 5 voltas a um circuito de 2km. A primeira foi bastante rápida, sendo o meu maior foco manter o ritmo e ao mesmo tempo não me embrulhar numa queda nem grupo, algo que seria catastrófico naqueles ritmos e com tantos atletas. Após a primeira volta, o foco foi o mesmo: manter o ritmo. Mas aqui já sabia que se aguentasse a bitola, iria produzir resultados. E assim foi. Durante a segunda e terceira volta ultrapassei dezenas e dezenas de atletas. E não estou a exagerar. É por isso que digo que não entendo porque é que tantos atletas exageram no arranque das provas.

Duas vezes por volta, podia ouvir os autênticos berros da minha mais que tudo, mas acreditem que nem por uma vez consegui reagir aos incentivos dela. Foi uma prova constantemente na red line. À entrada da quarta volta, a coisa começou a mexer-se de maneira diferente. Logo naquela primeira parede (quem conhece o percurso sabe do que falo), já foi bastante complicado subir com a genica das primeiras vezes. E voltar a acelerar depois então nem se fala. O ritmo desceu naturalmente mas mesmo assim continuava vivo. Se há coisa que nunca me faltou, foi atletas no campo de visão para me motivar. Mesmo se por vezes me encontrava sozinho, rapidamente conseguia apanhar algum atleta à minha frente que me motivava a não abrandar.

À entrada para a última volta já estava em modo sobrevivência. As pernas começavam a pesar, e se antes da partida tinha a sensação que estava completamente solto, agora começava a sentir que tinha um treino longo em cima. Embora a classificação (infelizmente) não interessa-se muito, não queria perder lugares por isso cerrei os dentes e continuei na luta. De referir que para além do excelente nível competitivo, o facto de ter aquele público todo à volta (mesmo que na verdade fossem atletas que já competiram ou iam competir, e outros membros das equipas, ou seja, verdadeiro público era muito pouco) e estar constantemente a ouvir palavras de apoio (mesmo que não fossem para mim ahaha), foi um autêntico boost de motivação. Apenas nos últimos 500m, se deu caso de um atleta passou por mim a alta velocidade. Nem o tentei acompanhar. Mas não foi caso único. A 50m da meta olhei pela primeira vez para trás pois não queria perder nenhuma posição ali, e não vi ninguém. Ao passar pela meta de repente aparece-me um atleta vindo do nada que basicamente passou a meta um cagagésimo de segundo depois de mim. Nem entendo de onde ele veio.

O resultado foi completamente surpreendente. Fechei a prova com um tempo oficial de 32m42s, o que para um corta-mato de 10km, nem nos meus melhores sonhos pensei em algum dia fazer. Embora o circuito fosse diferente (o parque era o mesmo), estamos a falar de quase menos 3 minutos do ano passado! Como não ficar satisfeito? E se fizermos uma média por volta, a coisa foi 3:13/km, 3:16/km, 3:20/km, 3:23/km e 3:21/km, o que acaba por corresponder às sensações que fui tendo. A classificação essa foi de 62º da geral. Como eu disse no meu post nas redes sociais, agora pensem nos tempos da “manada” à minha frente.

E agora o que se segue? Nada. Zero. Nem quero ouvir falar de provas nas próximas semanas. O meu único objetivo é mesmo no final do ano com a São Silvestre da Amadora. Até lá, quero apenas desfrutar da corrida e para isso nada melhor que um bom bloco de treinos sem pensar em competição. Vamo-nos vendo por ai!

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Resultados: 99º Campeonatos Nacionais de Corta-mato Longo

Campeonato Nacional de Corta-Mato
novembro 29, 2022
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