sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O prazer de treinar

Um das frases mais oiço sobre o facto de eu correr todos os dias é a famosa: "não sei como consegues". Eu normalmente sorrio e encolho os ombros. Que é que eu posso responder? Que tenho prazer em treinar? Que consigo tirar prazer de uma coisa que às vezes consegue ser dolorosa? A seguir chamavam-me masoquista, parvo, diziam se não tinha mais nada para fazer, entre outros.


Os meus dias durante a semana começam cedo. Muito cedo. O despertador do telemóvel está programado todos os dias para as 6:30. Para quem pensa que eu sou doido, eu respondo que há piores. 5:00, outros às 5:30, outros já estão às 6:00 em Monsanto (eu levanto-me às 6:30 para correr na minha zona)... É uma questão de prioridades. Quem corre sabe que treinar é uma coisa que tem de ser encaixada no dia de trabalho, no tempo da família, no tempo da namorada(o)/mulher/marido. Não é uma obrigação, mas é uma coisa nossa que tem de ser gerida e respeitada.

Também gostam muito de me interrogar sobre o que é que eu penso. Eu respondo com o típico "sei lá!". A verdade é que em um treino normal (corrida contínua) dá para pensar em dezenas de assuntos. Mas esse é um dos principais prazeres da corrida. Se for um treino solitário, podemos pensar em diversos assuntos, refletir sobre os mesmos, pensar no sentido da vida. Será que as pessoas a quem isto faz confusão, têm medo de pensar sobre a sua vida? Desculpem lá as questões filosóficas, mas não podemos ter medo de pensar sobre nós próprios.

Às vezes interrogo-me se prefiro fazer provas ou treinar. Não duvido que muita gente adore ir às "missas" que há todos os fim de semanas por esse país, mas a verdade que o que me dá gosto na corrida é treinar. Todos os dias consegue ser diferente. Todos os dias me consegue dar novas sensações. Num treino intervalado como este é possível ter dezenas de sentimentos diferentes (vá bora uma já está.. duas siga... fod*-** ainda só agora vou a meio) mas por mais que acabe completamente destruído, estes treinos são os que me deixam com vontade de treinar mais e mais e continuar a melhorar.

O pico da semana é normalmente o treino longo. É um treino que custa a fazer, é onde está todo o cansaço da semana acumulado, mas é onde se comprova que o corpo é uma máquina fantástica. Quando parece que as nossas energias já estão a falhar, o corpo começa a pedir mais e mais, e por vezes sou eu que o tenho de fazer abrandar. Nos últimos tempos tenho evoluído bastante nos treinos longos, os ritmos têm aumentado e tenho acabado os treinos com vontade de abrir os braços como quem diz "vocês viram o que acabei de fazer?". Obviamente não faço isso pois o máximo que ia conseguir era uma velhinha no meio da rua a abanar a cabeça em sinal de reprovação e a pensar que esta juventude estava perdida com as drogas.


Poderia falar sobre como as endorfinas de manhã agem como um café duplo no meu cérebro. Poderia falar disto e daquilo. Poderia continuar a divagar quase infinitamente sobre este assunto. O que é que eu queria provar? Nada. Apenas exprimir-me um pouco sobre este assunto. Cada um tem a sua forma de treinar, de ver as coisas, de estar no mundo. Eu não sou melhor que ninguém, mas também na minha cabeça ninguém é melhor do que eu. Sou apenas simples amador. Eu sou simplesmente aquele que gosta de correr.

9 comentários:

  1. Excelente texto!!!
    Só quem anda lá dentro pode compreender algumas coisas. É que nem vale a pena tentar explicar aos que não correm que ainda ficarão com pior impressão nossa, eh eh!

    Sobre o que se pensa. Acabei um treino de 15 km e não me lembro o que ia a pensar, o que já é uma grande vantagem, o podermos estar hora e meia pensando em nada. as outras vezes tomo grandes decisões.

    Um abraço e sê sempre assim feliz a correr!

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    1. Obrigado João!

      Sim sem dúvida, às vezes até chego a pensar no que pensei durante uma hora de treino ou assim e chego à conclusão que não pensei nada, o que na verdade até sabe bem. Mas muitas vezes já resolvi coisas que estava "empancado" no trabalho e já tomei diversas decisões!

      Um abraço!

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  2. Onde disse "as outras vezes tomo grandes decisões." queria dizer "Mas outras vezes tomo grandes decisões.", faltou-me um m que faz toda a diferença no contexto

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  3. excelente texto continuar a fazer aquilo que te faz feliz abraço marco lopes

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  4. Que texto fantástico Vítor. É tão complicado dizer o que se pensa durante os treinos, a maior parte das vezes não me lembro o que pensei durante as horas anteriores.

    Quanto ao porquê se corre, ainda há muita gente que não percebe o objectivo. Eu não corro rapidamente nem tenho grandes tempos, por norma ando sempre no ultimo terço do "pelotão", mas tinha um colega de trabalho que depois das provas a 1ª pergunta era sempre "então em que lugar ficaste".

    Abraço

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    1. Obrigado João!

      Epa a pergunta em que lugar fiquei era o que mais me enervava! Agora pronto lá vou conseguindo umas classificações melhores e o pessoal já fica a olhar para mim com cara de parvo :p

      Um abraço!

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  5. Belo texto!

    É mesmo muito complicado explicar a pessoas que não compreendem o que fazemos, porque o fazemos, como...

    Quando era um puto federado, basicamente fazia velocidade e salto em comprimento, e aí posso dizer, gostava de treinar, mas o que era mesmo bom (usava outra expressão mas tens aqui um blogue familiar) eram as provas, a descarga de adrenalina que provocava, o ir ali no meio da pista, lado a lado, a dar o máximo, puxar até não dar mais.

    Nas provas de 200 e 400 m então, sair da curva para a reta da meta é qualquer coisa que ainda hoje só de pensar nisso me dá arrepios.

    Neste momento, e com outro tipo treino e provas o que gosto mesmo é de treinar, as provas são mesmo um complemento, como uma festa, onde encontramos conhecidos, vamos conhecendo este país, quem sabe outros.

    E sim, a pergunta, em que lugar ficaste, ou ganhaste? ahhhhhhhhhhhhhhh

    Abraço

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  6. Muito bom Vitor, tens o dom da escrita! Gosto também bastante do novo aspecto gráfico do teu blog, está muito giro!

    Abraço

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