41ª Corrida das Fogueiras

Eu sei. Já passaram duas semanas. Mas não podia deixar de poder escrever sobre esta prova. Afinal, foi simplesmente a minha melhor prova de sempre.

Esta época tem sido uma época de mudança. Foi uma época em que levei mais a sério a nutrição, tive novas experiências treinos intervalados em pista e até introduzi algum cross-training (rolos). E com isso, em certas alturas desta época tenho sido premiado com alguns bons resultados como o Grande Prémio de Natal e o Regional de Estrada. Mas a recompensa de todo o trabalho estava guardada para as Fogueiras.

As semanas que antecederam Peniche foram longe de serem perfeitas. Como disse neste vídeo, tive de parar alguns dias e treinar limitado noutros devido a uma dor bastante forte no calcanhar do pé direito. O que tive? Eu sei lá menino. Uma inflamação foi de certeza, mas o que foi em concreto, é complicado de saber. Mas tirando isto, fiz dos melhores blocos de treinos até hoje. Sentia-me bem, e os treinos intervalados estavam a sair acima do expectável. E isso refletiu-se na prova.

No dia da prova, fui com tempo para Peniche. Como já é normal, levei a minha família comigo, pois todos gostamos da tradicional sardinhada no final da prova. Ao entrar em Peniche percebi logo que estava uma ventania que não era de todo desejável. Mas tentei logo interiorizar que esta iria lá estar para todos. O mau de ir com tempo para esta prova, é o facto da partida ser tão tarde. Eu percebo a intenção mas esperar até às 21h30 é mesmo uma seca.

O mais engraçado é que mesmo com tanto tempo, acabei a começar o aquecimento tarde. Tão tarde que acabei a entrar no bloco da partida já com todos os atletas lá e já com homenagens a serem feitas antes da partida. Felizmente consegui estar suficientemente perto da linha de partida para não sofrer muito no arranque.

O tiro de partida foi dado e aquele típico ritmo louco impôs-se. Foi um primeiro quilómetro a 3:08/km, que como habitual, quase que nem o dei por passar. Os quilómetros que se seguiram foram algo estranhos. Formou-se um grupo na frente com cerca de 10 a 15 atletas. Destacado na frente, ia um atleta penso que do União FCI Tomar, mas que por estratégia ou carolice foi à maluca durante uma série de quilómetros, ficando depois bem para trás. Eu consegui aguentar os ritmos do grupo (uma média de 3:15/km) e como me sentia bem, segui na cauda do mesmo. Sabia que estava fora do meu habitat natural e se fosse preciso abrandar, facilmente desligava o acelerador e deixava o grupo ir à vida deles.

Já depois de passar pela caminhada e pelos berros da minha mulher que se ouviram em Espanha, o grupo começou a ter um comportamento estranho. Houve ali uma controlo estratégico dos principais atletas à vitória que fez com que o grupo andasse a acelerar e a abrandar durante bastante tempo. Não vou mentir que isto me ajudou, pois apesar do meu pensamento naquela altura ser "vais demasiado rápido, vais rebentar daqui a nada e depois vais chorar", a verdade é que me estava a sentir bem e naquela altura pensei como os putos dizem: #YOLO.A partir do 6º km tive a noção que realmente poderia estar a fazer uma prova fora do normal. Com as subidas a começarem a aparecer, o grupo começou a partir e comecei a ultrapassar alguns atletas que por norma ficam à minha frente. 

O 7º e 8º km, são aqueles que podem acabar com a prova de um atleta em Peniche. Consegui manter um ritmo estável nas subidas, apesar de muito mais baixo que o ritmo que estava a fazer anteriormente. Felizmente acabei por não sofrer muito com o vento, e mesmo as fogueiras ao longo do percurso comprovaram isso, pois lembro-me de já ter acontecido que com o vento o fumo vir para cima dos atletas. Mas benditas fogueiras, que acabavam por iluminar o caminho nesta parte do percurso feito completamente na penumbra. Felizmente a estrada já não está em tão más condições como no passado.

Por esta altura já seguia sozinho. Que surpresa não é? Mas felizmente esta prova tem um bom nível e estava com atletas no meu campo de visão. Aliás, por esta altura ainda via o carro com o cronómetro da prova. Apanhei alguns atletas e fiquei com eles um pouco. Após umas centenas de metros tive um pensamento estranho. Avaliei como me estava a sentir e pensei "bem, estás demasiado confortável, chega de descanso. Vamos embora". E fui.

Aproveitei a embalagem e apanhei dois atletas que seguiam juntos. Estava-me a sentir tão bem que nem me pus à "mama", acabei por seguir diretamente para a frente deles. Aliás, só tenho a agradecer a um deles, que na única vez que me meti para a via da direita me avisou logo que aquela via estava cheia de buracos. Seguimos juntos durante bastante tempo pelo sobe e desce dos 10 aos 13km. A partir daqui tentei descolar e um dos atletas seguiu comigo. À entrada dos 14km esse atleta disse-me "não te preocupes comigo que eu já rebentei". Tive para lhe dizer "se soubesses quantas vezes já ouvi isso e depois passaram a sprintar por mim...". Ainda lhe dei força para ele vir comigo durante algum tempo, mas acabei por aumentar o ritmo e acabou por ficar para trás. Fiz o 14º km a 3:12/km.

O quilómetro 15 foi das coisas mais surreais da minha "carreira" desportiva. Estava completamente isolado. Só ia passando pelas pessoas da caminhada e pelo público. Alguém me gritou e disse que eu seguia na 5ª posição. Achei isso surreal. Mas sentia-me bem. Sentia-me demasiado bem. Estava fresco e as pernas moviam-se com uma leveza de outro mundo. Passava pelos maiores aglomerados de público e ainda puxava por eles. Passei pela minha família. Vi a meta e olhei para o cronometro e vi que estava no minuto 49. O meu objetivo era acabar no minuto 50 (altos). Este último quilómetro foi feito a 3:05/km. Abri os braços e passei a meta. Senti-me um vencedor ao passar aquela linha. E o mais inacreditável é que ainda me sentia com força para fazer mais um bom par de quilómetros naquele ritmo. A adrenalina é uma coisa de outro mundo.

Terminei com um tempo oficial de 49m28s. E sim, na 5ª posição da geral. Pela primeira vez subi ao pódio da Corrida das Fogueiras, mesmo que tenha sido para 5º sénior. Esta é uma das minhas provas preferidas (se não a minha prova preferida), e deixou-me completamente num estado completamente incrédulo o que fiz naquela noite. O meu melhor tempo aos 15km era de 51m29s na Corrida dos Sinos (em 2017!) e por isso esmaguei este recorde pessoal em 2 minutos. Em termos coletivos fizemos 6º lugar (masculinos). Nada mau também!

Dado que já passaram duas semanas, posso dizer que o descanso já está feito. E na verdade agora até com um descanso forçado pois no final das férias é que acabei por testar positivo pela primeira vez ao covid. Melhor agora do que a meio de um bloco de treinos. Mas infelizmente vai ter de me fazer abortar qualquer esperança de poder ajudar o clube na final Campeonato de Clubes. Mas pronto, certamente haverá mais oportunidades. Agora é meter as mãos à obra e preparar-me para novos objetivos. Não quero e não vou ficar por aqui. Ainda há muito para melhorar!

Obrigado a todos que ficaram felizes com esta minha marca. Foi emocionante ver tanto apoio!



Corrida das Fogueiras
julho 9, 2022
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